05 abril 2006

Interatividade

Muito embora se trate de um fenômeno ainda novo, já está muito absorvido no nosso dia a dia esse convívio em ambientes virtuais que, com as novas tecnologias, torna-se cada vez mais interativo. Os veículos de comunicação mediada têm lançado mão de recursos técnicos que abrem cada vez mais o espectro de possibilidades nesse sentido, aumentando e modificando estruturalmente as formas de interação social, ocasionando novas formas de relação e até mesmo criando novos paradigmas para elas. É importante nesse ponto esclarecer que a interatividade é o que possibilita ao indivíduo afetar e ser afetado por outro numa comunicação que se desenvolve num sistema de mão dupla que vamos analisar dentro da grande rede mundial de computadores, a internet. Trataremos desse assunto, a seguir, tomando como base de análise o consumo nos ambientes virtuais interativos através das relações do sujeito com as marcas, que acontecem sob certos aspectos de forma diferenciada dos espaços físicos.

Nesse não-espaço da internet as interações, desprezando-se por um momento o e-comerce, se caracterizam principalmente por um consumo de bens simbólicos. Não há relação palpável, mesmo com objetos ofertados, uma vez que se trata não do objeto em si mas de sua representação, imaginética ou informativa, ou de conteúdos interpretativos de dados e fatos. Embora alguns sites pratiquem a modalidade de oferecer conteúdos exclusivos apenas para assinantes a disponibilidade de informações ainda é bastante livre, o que acaba por configurar um espaço bem mais democrático que os ambientes físicos e por romper com velhas estruturas de poder ainda muito arraigadas no pensamento contemporâneo. O poder simbólico que os indivíduos experimentam aí, portanto, é muito mais nivelado. Como via de regra num contexto de consumo o indivíduo pode se inserir ou excluir de determinados grupos dependendo da possibilidade de exercer ou não esse poder e assim sendo o consumo adquire um interessante papel, truncando e confundindo a própria noção de cidadania.

Comparemos empresas/marcas que abrem lojas em espaços físicos e na internet, por exemplo. No primeiro caso, dentre outros, há fatores elementais que caracterizam e definem o valor agregado dos produtos e serviços oferecidos ali que estão diretamente ligados com o investimento financeiro empregado em sua montagem, além do bom senso estético, funcionando como diferenciadores de uma marca para outra, enquanto na internet esses fatores e elementos, em virtude dos investimentos serem basicamente os mesmos, se diferenciam, de página para página, fundamentalmente por esse fator estético e, na maioria dos casos, do nível cultural do indivíduo(s) produtor(es) do conteúdo oferecido, ou seja, por um investimento intelectual. Dessa forma, pode-se dizer que no espaço físico essa noção se fundamenta principalmente nas relações econômicas e é mais clara, embora em ambos os casos tenha muito a ver com os fatores estéticos da apresentação das formas.

A necessidade de consolidação das marcas, no entanto, é uma questão contígua em ambos os casos, uma vez que por si só é sinônimo de valor agregado para os bens disponibilizados, ainda que as vantagens sejam específicas e variem para cada ambiente. Nos ambientes físicos é um importante diferencial de mercado e muitas vezes funciona como um desses novos paradigmas das relações sociais que citamos antes, por causa da forma como essa sociedade de consumo - da maneira que a estamos vivenciando hoje - nichifica as interações tomando como principal elemento antropológico de identificação o acesso a essa ou aquela marca. Sendo que esse acesso se relaciona diretamente com o poder econômico do sujeito. Já num âmbito virtual, os acessos são mais ou menos irrestritos e essa consolidação acaba por ter muito mais a ver com a fixação da marca na lembrança do usuário, garantindo a frequência e credibilidade do site. Até mesmo por que aí o acesso se dá a bens simbólicos, não mensuráveis do ponto de vista de custos financeiros de produção das formas.

Com base nessas considerações, estudos tem concluído um outro ponto a se analisar que é um novo tipo de fidelidade bastante característico dos espaços virtuais. Muito embora o fluxo seja infinitamente mais desterritorializado e livre que nos ambientes físicos, os usuários regulares de internet demonstram ter uma forte tendência a criação de rotinas e ainda que a navegação link a link os levem a circular por uma teia vasta e ilimitada esse não é tipo mais comum de navegação. Aparentemente, por mais que busquem bens ou formas disponibilizados em páginas menos consagradas o acesso a elas se dá através, quase invariavelmente, a partir do site de busca ou outras páginas com o qual o sujeito tem maior familiaridade. Movimento não muito diferente do que se observa no universo físico onde o indivíduo configura hábitos de consumo mais ou menos padronizados, principalmente quando se observa a segmentação do comércio em classes sócio-econômicas.

Todos esses aspectos tratam então de justificar, de certa forma, os investimentos maciços em publicidade feitos pelas marcas, uma vez que sua fixação e consagração se tornaram tão importantes para sua própria existência. Pode–se observar no contexto do trabalho com sua divulgação uma mudança de enfoque das mesmas, que antes eram apenas um indicativo da procedência ou propriedade dos produtos e que hoje seguem uma tendência ao que se poderia chamar “humanização das marcas”, como um novo estilo de sedução e envolvimento do consumidor através do qual os aspectos conceituais subjetivos ligados às atitudes e comportamentos a que elas se associam tornarem-se mais valoráveis até que a própria qualidade técnica dos bens e formas por eles produzidos. O que vem de encontro dessa nova conjuntura interacional onde cresce a disponibilidade de ofertas de bens e o indivíduo tem sua atuação e possibilidade de intervenção também cada vez mais dilatada, afinal essa empatia com as marcas não poderia se dar desconsiderando-se os fatores emocionais dessa relação seja num âmbito físico ou virtual.

03 abril 2006

Nós que aqui estamos por vós esperamos

Meu ponto de partida na análise desse filme foi o título da obra uma inscrição na entrada de um antigo cemitério, da qual o autor se apropria e que exerce sobre nós um interessante efeito. Ela nos desperta e instiga uma investigação em um universo profundo, esquecido em nós mesmos. A partir dai ele começa a nos descortinar o tema de uma forma quase onírica, construindo uma narrativa histórica que ilustra e contextualiza o que foi o séc XX através da apresentação de fragmentos de imagens de fatos, que muito embora a alguns deles hajamos presenciado, parecem mais um retrato desbotado de algum desconhecido.

É interessante destacar que ele utiliza, em sua grande maioria imagens de algumas dezenas de anônimos, registradas em sua maioria por outros cineastas igualmente anônimos, quando não acidentais, nos desafiando a reconstruir nosso próprio conceito de História, no sentido de que talvez a verdadeira História da sociedade seja feita, não só pelos grandes montantes que se apresentam nas estatísticas, ou nos incríveis personagens produzidos um após outro para legitimar cada momento e cada movimento das ideologias dominantes, mas sim por cada um de nós. E é que por isso moldável a nossos desejos, interesses e atitudes nos lembrando de nossa carga de responsabilidade em seu curso.

A forma como ele vai desfiando as seqüências de imagens nos defronta diretamente com o esvaziamento que nos trouxe até esse hoje individualista oco e com a necessidade de nos reconectarmos com nossa humanidade, colocando em cheque a questão da banalização da dor, do sofrimento, da morte e portanto da vida na qual estamos mergulhados. Ainda outro dia eu ri abismada com a verdade da afirmação “conseguiram matar a morte.” 1 a frase impactante que ouvi numa conversava sobre o fotojornalismo popular. Falávamos da perda dos ritos de passagem que envolvem a morte e como essa abordagem dos jornais de noticias populares são descomprometidas com a questão da ética. E a meu ver esse afastamento do homem da dimensão do “sacro”2 nos tirou algo de caro à nossa essência humana ao ponto de passarmos por nosso cotidiano de pequenas histórias com o olhar indiferente o suficiente para não as notamos.

Outro ponto que observei foi a questão da função social desses “anônimos” identificados por seus nomes e atividade produtiva que se exerciam informação que os situava em relação às importantes das relações de poder que entrelaçam a História dos grandes homens e acontecimentos a seus enredos quase sempre definindo seu desfecho.

O grande mérito desse filme para mim foi ter logrado de forma muito direta propor esse despertar para um olhar crítico sobre o passado e o futuro da sociedade através da conscientização do presente na dimensão do real palpável e acessível, nos lembrando que somos indivíduos mas que fazemos parte afetando e sendo afetados pela História de toda a sociedade. E quem sabe nos despertar para o fato de que nesse enfoque da construção da História o século XXI seremos nós.