Meu ponto de partida na análise desse filme foi o título da obra uma inscrição na entrada de um antigo cemitério, da qual o autor se apropria e que exerce sobre nós um interessante efeito. Ela nos desperta e instiga uma investigação em um universo profundo, esquecido em nós mesmos. A partir dai ele começa a nos descortinar o tema de uma forma quase onírica, construindo uma narrativa histórica que ilustra e contextualiza o que foi o séc XX através da apresentação de fragmentos de imagens de fatos, que muito embora a alguns deles hajamos presenciado, parecem mais um retrato desbotado de algum desconhecido.
É interessante destacar que ele utiliza, em sua grande maioria imagens de algumas dezenas de anônimos, registradas em sua maioria por outros cineastas igualmente anônimos, quando não acidentais, nos desafiando a reconstruir nosso próprio conceito de História, no sentido de que talvez a verdadeira História da sociedade seja feita, não só pelos grandes montantes que se apresentam nas estatísticas, ou nos incríveis personagens produzidos um após outro para legitimar cada momento e cada movimento das ideologias dominantes, mas sim por cada um de nós. E é que por isso moldável a nossos desejos, interesses e atitudes nos lembrando de nossa carga de responsabilidade em seu curso.
A forma como ele vai desfiando as seqüências de imagens nos defronta diretamente com o esvaziamento que nos trouxe até esse hoje individualista oco e com a necessidade de nos reconectarmos com nossa humanidade, colocando em cheque a questão da banalização da dor, do sofrimento, da morte e portanto da vida na qual estamos mergulhados. Ainda outro dia eu ri abismada com a verdade da afirmação “conseguiram matar a morte.” 1 a frase impactante que ouvi numa conversava sobre o fotojornalismo popular. Falávamos da perda dos ritos de passagem que envolvem a morte e como essa abordagem dos jornais de noticias populares são descomprometidas com a questão da ética. E a meu ver esse afastamento do homem da dimensão do “sacro”2 nos tirou algo de caro à nossa essência humana ao ponto de passarmos por nosso cotidiano de pequenas histórias com o olhar indiferente o suficiente para não as notamos.
Outro ponto que observei foi a questão da função social desses “anônimos” identificados por seus nomes e atividade produtiva que se exerciam informação que os situava em relação às importantes das relações de poder que entrelaçam a História dos grandes homens e acontecimentos a seus enredos quase sempre definindo seu desfecho.
O grande mérito desse filme para mim foi ter logrado de forma muito direta propor esse despertar para um olhar crítico sobre o passado e o futuro da sociedade através da conscientização do presente na dimensão do real palpável e acessível, nos lembrando que somos indivíduos mas que fazemos parte afetando e sendo afetados pela História de toda a sociedade. E quem sabe nos despertar para o fato de que nesse enfoque da construção da História o século XXI seremos nós.
Quem não quer ver o próprio carro feliz, né?
Há 16 anos
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