30 março 2006

Cidadania feminina

1970, Estados Unidos , uma importante retomada do movimento feminista leva às ruas centenas de mulheres em luta por melhores oportunidades e condições de vida. Embuídas do espírito desse movimento que já dava sinais desde antes mesmo do séc XIX, essas mulheres lançavam um olhar, naquele momento talvez até um pouco radical, sobre a posição que ocupavam naquela sociedade patriarcal e machista que até não muito tempo atrás sequer as considerava como cidadãs. De lá pra cá, muita coisas mudou, muita coisa aconteceu, mas será mesmo que o desejo daquelas mulheres se concretizou?

A própria questão da cidadania da mulher que só foi outorgada na Inglaterra em 1928, elevando-as legalmente a um patamar de igualdade de direitos com os homens, uma vez que já exerciam todas as obrigações, foi em outros paises ainda mais tardio e sem efeito concreto, até algumas décadas mais tarde, em seu cotidiano.

De fato, por mais meritoso que pudesse ser, dizer-se que essa foi uma conquista dessas mulheres, seria mesmo uma inverdade. Já que algo tão caro ao movimento feminista foi logrado por interesses políticos de partidos que visavam o apoio de mais eleitores. E o conseguiram dando-lhes o espaço e a projeção de que precisavam para lutar por seu direitos, inclusive o do voto. Daí se conclui que a estrutura social na qual estamos inseridos, em si mesma, embora haja amadurecido ao longo desses anos, ainda não conseguiu uma mudança significativa. Qualquer mulher terceiro mundista ainda hoje reconhece que a maioria desses direitos não pode ser ainda chamado conquista.

Desde a antiguidade a visão da sociedade sobre a mulher as situava num contexto de cuidados domésticos e procriação sendo essas as únicas funções possíveis, o que culturalmente as relegou a uma categoria de produto fornecedor de satisfação para os desejos e necessidades do homem. As representações estéticas da mulher esteviveram sempre associadas à tentação e isso fica muito claro na forma de sua exploração no mundo ocidental, sobretudo nos meios de comunicação, que são claros reflexos dessa visão arraigada da mulher.

A maioria ainda entende que a busca da mulher por poder externo, aparentemente em oposição à força interna, criou um vácuo na educação moral e na ética com a qual nossas crianças, e portanto o futuro da sociedade, são criadas, e mesmo as mais atuantes feministas admitem que há grandes equívocos nesse sentido, uma vez que parte das mulheres, no afã da luta, renegaram radicalmente o feminino nesse processo, enquanto outras, não menos equivocadas, abraçaram mais funções e tarefas do que podiam, assinalando, em ambos os casos, com a perspectiva da destruição dos papéis tradicionais dos gêneros.

Hoje as mulheres conquistaram uma posição significativamente mais relevante na sociedade e muito se construiu no tocante á seus direitos, liberdades, possibilidades, importância na política, economia, família e segurança e é de suma importância que se comemore cada uma delas, mas é igualmente importante que se compreenda que todas essas conquistas ainda estão anos luz aquém do próprio significado do termo “ideal de igualdade”, não só por serem subjugadas por homens, mas realmente pela perpetuação de conceitos ensinados e reforçados por tanto tempo que as próprias mulheres atuam como algozes de si mesmas.

2006, Brasil, um retrocesso na luta pelo reconhecimento da mulher cidadã leva as telas da televisão e as páginas de revistas centenas de mulheres vestindo trajes sumários para reforçar a cultura da mulher bibelô que enfeita e desperta a lascívia de uma sociedade que se diverte descompromissada com as implicações que esse tipo de conduta acarreta.

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