Valença, 3 de outubro de 1897.
Meu adorado filho Bentinho,
Estavam todos diante de mim. Eu já sabia do peso da minha própria responsabilidade naquele momento. O pai estava à direita da velha senhora. Cabelos negros muito bem alinhados, o paletó de festa todo abotoado, revelando apenas o impecável branco do colarinho e a gravata de um vermelho escarlate, presa pelo elegante pino de ouro com o brasão da família. Ele tinha o braço estendido e parecia sustentar com toda sua força a velha senhora sentada na elegante cadeira estilo chippendale logo abaixo. Sua expressão grave só se notava ao ver-lhe os olhos, sem brilho, quase inertes. Num ângulo tal que, embora de uma posição muito mais elevada que ela e mais atrás, a mantinha no canto do campo de visão. Fitava-a como se lhe contasse cada respiração a espreita de algo.
As crianças e algumas já nem tanto o eram, se acomodaram a seu redor. O mais velho, um rapaz que julguei perto dos trinta, a esse não lhe poderiam dizer bastardo jamais tamanha semelhança como pai, embora nos detalhes se lhe notassem as diferenças. As longas madeixas igualmente negras, presas por uma fita verde escuro muito bem escolhida para fazer jogo com o casaco, estavam impecavelmente arranjadas de forma que as ondulações não lhe cobriam sequer uma expressão da face alva e bem desenhada. Tinha uma expressão leve, típica dos jovens, embora se lhe notasse a tristeza do olhar. Estava de pé ao lado direito do velho homem e talvez a postura, o traje ou a posição que tomara seu pai para tocar a senhora lhe fazia enorme, como um colosso segurando com esse frescor jovial as emoções dos presentes.
A irmã sentada ao lado da mãe parecia destoada na cena. Era uma jovem a quem se aproximava a idade de casar-se. Isso se lhe via pelos rubores, no quanto se movia para chamar-me a atenção e nos faróis que se ascendiam de seus olhos cada vez que eu mesmo correspondia-lhe os olhares ou me dirigia a ela para dar instruções sobre sua posição. Estava metida num longo vestido de cetim da cor da mais madura das pérolas birmanesas de não menos de seis anáguas, muito ajustado na cintura, chamando a atenção para as curvas do tronco que davam em ancas que eu minuciosamente contornava com o olhar. Tinha o colo à mostra num profundo decote bem embainhado por um espartilho muito apertado e adornado por um colar de ouro cravejado de topázios quase no mesmo tom do vestido. Era bonita a pobre, embora a frivolidade dos gestos diante da gravidade da cena a esmorecesse as feições. Parecia não perceber a situação em que estava inserida e que não lhe interessava nada além de suas próprias preocupações fúteis com fitas, arranjos, carmins e moços. Mas ainda assim posava ali na mesma poltrona segurava-lhe a mão como num gesto de consideração que eu por experiência sabia ser, para ela, meramente estético.
O caçula estava incontrolável hoje e talvez pela ansiedade do momento de um registro tão bizarro pareceu-me estar todavia pior. Eu não os conhecia tão bem assim, aos Cota, mas já os havia visto em outras situações sociais, festas, casamentos e funerais que costumo freqüentar por meu ofício e ele jamais se mostrara tão irrequieto. Corria de uma lado para o outro carregando um pato que me pareceu ser uma espécie de mascote por causa de uma fita de tecido dourado muito delicada que lhe enfeitava o pescoço num laço. Trombava em tudo e cantava a plenos pulmões todas as canções que provavelmente a ama cantava para ele em dias de festa. Eu mesmo cheguei a assustar-me uma vez quando a pequena besta veio em minha direção com tanto afã que quase me atira todo o equipamento ao chão. Mas depois do incidente, sob ordem do pai que, prevendo o prejuízo de ter que pagar não só pela foto mas por todo um equipamento de fotografia, o fez sentar no chão com o pato no colo aos pés da mãe.
Ela parecia uma verdadeira aparição sentada ali tão altiva e elegante. Pareceu-me que sua pele alva se empalidecia, em contraste com o veludo verde profundo do estofado. O espaldar alto lhe fazia fundo ao rosto já não tão jovem, mas ainda bonito. Tinha os cabelos presos num coque no alto da cabeça donde pendiam uns poucos cachos que lhe faziam moldura às feições. Já havia ouvido falar de seu mal, mas olhando-a ali sentada entre os entes mais queridos não me pareceu doente. A boca bem vermelha e úmida, os olhos cintilantes indicavam uma espécie de felicidade plácida e serena.
A tarde se aprofundava levando consigo seus brilhos e deixando não mais que o espaço perfeito para os laranjas e púrpuras do crepúsculo. Todos então se posicionaram melhor. Rostos imóveis, olhares fixados na lente no aguardo do segundo eternizado.
Eu já preparado. Cabeça metida sob a batina da máquina agarrava a chapa com toda a força para não tremer enquanto levantava o estopim do flash com o outro braço.
Como comprova o regalo que agora te despacho, a foto foi feita provavelmente sobre o último suspiro de sua avó ainda viva.
Naquele momento, quando me desvencilhei das mantas, tudo o que vi foi a expressão de pavor de sua mãe, como se a foto lhe houvesse congelado mais que apenas a imagem. Ela alternava o olhar entre a mãe, que agora se percebia morta e eu, como que me pedisse ajuda sem saber como. Já não se via por sua face sequer um traço da frivolidade de outrora, apenas a triste beleza de seu rosto bem feito mergulhado em desolação.
Seu pai foi o próximo a notar, talvez por sentir o peso, agora pendente, do corpo sob sua mão estendida ou talvez pela própria emanação de energias da filha aterrorizada.
O mais velho não foi capaz de mais do que pousar suavemente a mão sobre o ombro do velho senhor pesaroso, enquanto o caçula admirava tudo, abraçado a seu pato, sem poder entender as mil sutilezas das emoções que se sucediam na cena como poderosas lufadas de ventos marinhos contra gigantescas falésias que lentamente ruíam.
Me aproximei da jovem moça e conquanto pude desvencilhá-la da pesada mão da defunta, atirou-se em meus braços aos prantos.
Assim foi, meu adorado filho, e por isso te envio a foto de sua mãe com seus tios, avô e avó que perdemos naquela mesma fatídica tarde em que conheci sua mãe, para que guarde como recordo de seus ancestrais e de tão importante momento pra nossa família.
Com todo meu amor
Seu pai Joaquim Diógenes de Medeiros
Quem não quer ver o próprio carro feliz, né?
Há 16 anos
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