Quando eu tinha mais ou menos uns 14-15 anos eu levei um conhecido pra minha casa para tomar banho e comer. Eu conhecia ele a uns dois meses e sempre tinhamos ótimas conversas. Eu sempre gostei muito de ler e ele não tinha muita formação acadêmica mas era muito lido.
Eu morava com minha família e minha mãe voltou do trabalho naquela tarde para encontrar aquele rapaz e eu sentados conversando animadamente. Naquele momento eu não entendi o choque e o rechaço dela. Desde que meu irmão e eu éramos pequenos na minha casa sempre foi comum ter amigos e colegas visitando pra brincar, estudar, conversar, comer... enfim, mesmo conhecidos mais recentes que o meu novo amigo.
Mas tinha uma diferença entre o meu convidado e os outros. Não só meu novo amigo era negro; cabelo muito crespo e pele bem escura mesmo – como ele também era morador de rua.
A essa altura acho bom contar que minha mãe tem pele bem clarinha – chamo ela de minha rosinha por causa do tom rosadinho da pele dela – família descendente de portugueses, filha do meu avô e seus olhinhos muito azuis. Mas meu pai é negro.
Nunca pensei na minha família como sendo racista, especialmente minha mãe. E até hoje pra mim é muito difícil entender aquele episódio. Lá atrás, depois dela expulsar meu amigo da casa até chegamos a conversar e ela se admitiu racista, mas isso sempre me deixou confusa. E como não deixar?
Sendo casada com um homem negro e mãe de dois filhos bem mestiços, o fato dele ser negro – mas também suas roupas, cheiro, etc – foi o gatilho de uma reação/ aversão tão forte que me chocou. Talvez até mesmo à minha mãe.
Da minha parte, porque em aparência meu pai é negro, mãe branca, meu irmão e eu "médios" e nossos amiguinhos multicoloridos, eu não tinha percebido que cor de pele fizesse alguma diferença até aquela idade. Ainda tão novinha, o episódio já me confrontou com a complexidade do racismo com que lidamos no Brasil. Até onde mesmo esperamos ele emerge: avassalador.
Atualmente moro na Europa e o racismo virou matéria corriqueira na minha visa. Não que no Brasil não fosse, mas outra hora escrevo sobre isso.
Quem não quer ver o próprio carro feliz, né?
Há 16 anos